terça-feira, 5 de setembro de 2017

Mudança de atitudes

https://www.facebook.com/professoraindelicada01/posts/1427641240661120

Desabafo.
"Oi, prô. Sou professora de Língua Portuguesa em SP. Leciono há 17 anos. Em 2011 passei por situações que dividiram minha visão sobre ser professora. Sempre falo A.A (antes da agressão) e D.A (depois da agressão). 
Passei um ano afastada, e quando voltei mudei minha postura. Eu tentava justificar "Os tempos mudaram, eu preciso mudar".
E desde então eu não leciono mais LP... Não visitamos a literatura que eventualmente cai em vestibular, nada. Faço projetos em parceria com professores de outras disciplinas. E trabalho os temas que eles trabalham, e muitas vezes os mesmos textos. 
Os alunos sem acham "os caras" porque decoram dois ou três discursos de páginas/pessoas da grande mídia, algumas vezes pessoas e páginas duvidosas... E discursam como se tudo aquilo tivesse saído da cabecinha deles... 
Na aula desses dias, aproveitando a discussão sobre Meritocracia em Sociologia, levei um vídeo sobre o tema. 
No final, alguns alunos disseram que pra mim era tudo muito fácil, eu tenho um carro bom, cursei em uma universidade pública, e que provavelmente eu fazia parte da elite. 
Contei brevemente (porque eles perdem a atenção e o interesse em ouvir - sem interromper - por mais de três minutos) minha história, e de como foi difícil. Que meu carro é fruto de 12 anos trabalhando 60 horas semanais. Que eu saia de casa às 6h20 para chegar quase meia noite. 
Mas na visão deles, eu tenho um diferencial (que ninguém sabia me dizer qual) que tornava minha vida um conto de fadas moderno.
Parei. Pensei. E finalmente concordei com eles.
Eles estatelaram os olhos (e os ouvidos, rss) e eu disse:
- Minha vida teve sim um início em alguns degraus mais acima. Isso, posso ver agora.
E arrematei:
Eu tive pais. EU TIVE PAIS. Que apesar de pobres e sem instrução, fizeram o que podiam para educar a mim e meus irmãos. Eles se preocupavam conosco, com nossa educação e escolarização. Meu pai, que era pedreiro, e minha mãe, que fazia faxina, nunca disseram que éramos menos que ninguém. Mas também nunca disseram que éramos melhores que os outros. Esse é meu diferencial. 
Minha mãe só aprendeu a ler quando eu tinha 12 anos. Mas ai de nós se a nossa professora falasse que não fazíamos tarefa ou éramos indisciplinados. Pra minha mãe, a escola era um luxo que ela e meu pai podiam nos oferecer. Porque meu avô não podia dispensar um filho da lavoura para "perder tempo" sentado "só" lendo e escrevendo. 
Essa aula rendeu. 
E agora, o próximo projeto será "Planejamento Familiar" em conjunto com outras disciplinas.
Já que a maioria de nossos alunos não vive com "pai e mãe", tem N meio-irmãos espalhados por essa São Paulo, e até nesse Brasil. Numa vida bem maluca. Hoje mora com a avó, amanhã volta com o pai e a nova madrasta. Depois mora com a mãe, até a mãe arrumar um novo marido, e mandá-lo de volta pra avó.
Não foram planejados, nem tiveram seus irmãos/meio irmãos mais velhos ou mais novos planejados ou até desejados. 
 É assim.
Quase não tenho provas pra corrigir, a nota é dividida em 
- Trabalho individual (escrito) - valor 1,0
- Nota da turma - 1,0
- Nota do grupo - 8,0 (divididos em 2 trabalhos no trimestre.)
Se o indivíduo está respirando, mas não faz nada, e o grupo concorda em ceder nota a ele, por mim... 
Foi assim a maneira que encontrei de continuar trabalhando sem onerar minha saúde e meu tempo fora da sala. E sem apanhar de aluno.
Às vezes eu paro e penso que estou fazendo errado... Onde estão os conteúdos estruturantes? Mas depois eu penso... Estou fazendo o meu melhor diante das adversidades. Que são muitas."

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